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  • 01/11/2017
  • 16:45
  • Atualização: 18:06

Tecnologia digital e investimentos fazem África viver renascimento das salas de cinema

Contudo, os novos complexos tendem a dar preferência aos blockbusters norte-americanos

“A demanda está lá

“A demanda está lá", diz Jean-Marc Bejani, diretor executivo da cadeia Majestic | Foto: Sia Kambou / AFP / CP

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Como o enredo de um filme, os cinemas na África estão se reerguendo após anos de declínio preocupante: em muitos países, ao sul do Sahara, a tecnologia digital, o forte investimento e salas modernas trazem um grande avivamento cinematográfico. Mas esta boa notícia para os amantes da Sétima Arte vem com uma desvantagem: os novos complexos de cinema tendem a dar preferência aos blockbusters de Hollywood, em vez de longas feitos por diretores africanos.

Na década de 1980, uma onda de fechamentos de cinema começou a se desenrolar em todo o continente, à medida que as salas eram transformadas em oficinas de reparação de automóveis, supermercados, restaurantes e igrejas. Os sobreviventes eram uma série de locais de propriedade privada e cinemas dentro de centros culturais internacionais. Hoje, proprietários de cinemas dizem que o setor está fazendo um retorno. Está sendo impulsionado pela demanda demográfica e pela tecnologia digital que oferece distribuição imediata e de baixo custo, em comparação com o negócio caro de impressão e transporte por rolos de celulóide.

"A demanda está lá", diz Jean-Marc Bejani, diretor executivo da cadeia Majestic, que abriu três cines na capital comercial da Costa do Marfim, Abidjan, nos últimos dois anos. Em 2018, mais três serão abertos na cidade litorânea de Yopougon. Um gerente sênior da indústria do petróleo, Bejani se atirou no negócio ao descobrir que não havia cinemas na Costa do Marfim. O sucesso do empreendimento da Majestic chegou rápido, com 75 mil ingressos vendidos para uma única sessão em 2015 e 175 mil em 2016, quando as três novas telas entraram em uso.

"Antes disso, os cinemas eram antigos e tecnicamente desatualizados, com filmes sendo exibidos três meses depois do que na Europa", diz Bejani. "Eu queria imagens de alta definição, com 3D, assentos confortáveis e filmes que aparecem ao mesmo tempo que na França", explica.

Novo mercado de "classe média"

"Eu venho muitas vezes", diz a estudante Marie Benoit, parada na frente do bar vendendo refrigerantes e pipoca. A jovem tinha vivido há anos em uma cidade sem um circuito comercial. O Canal Olympia aplicou uma abordagem de alta tecnologia semelhante à sua tentativa de conquistar a África ocidental e central. Desde 2016, esta subsidiária do grupo de entretenimento global Vivendi abriu seis salas de cinema em Camarões, Senegal, Níger, Burkina Faso e Guiné. O objetivo do grupo é construir vários complexos multidimensionais nos próximos anos. "Uma classe média está se desenvolvendo na África... com vontade de se divertir", diz Corinne Bach, chefe da empresa.

"Os primeiros resultados são encorajadores", afirma ainda. Para o sucesso, o Canal Olympia está apostando na programação mista de filmes americanos, africanos e europeus, nomeadamente as produções do Grupo Canal +, outra empresa da Vivendi que desempenha um papel importante no cinema e na televisão.

Os novos locais destinam-se a hospedar shows populares, além de estar disponível para contratar como centros de conferências de negócios, para tornar a rede economicamente viável. Mas em vários países, os cinemas antigos estão sendo atualizados ou reabertos, incluindo meia dúzia na capital angolana Luanda; o CineKin em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, e a Normandie na capital do Chade, N'Djamena, renovada em 2011. Em Bobo Dioulasso, em Burkina Faso, que orgulhosamente acolhe o Festival Pan-Africano Bienal de Cinema e Televisão (FESPACO), a sala Guimbi logo renascerá como um centro cultural.

Promover filmes africanos

Em Dakar, um triplex privado deve ser aberto, com o nome do cineasta senegalês Ousmane Sembene, que morreu em 2007. O estado senegalês está pagando por "quatro projetos para renovar teatros com tecnologia digital" em todo o país, de acordo com Hugues Diaz, o funcionário do ministério da cultura responsável pelo cinema. Do outro lado do continente, no Quênia, a renovação do cinema começou há cerca de uma década. O país da África Oriental tem cerca de 10 cinemas modernos, geralmente localizados em shopping centers.

África do Sul e Nigéria - cuja indústria próspera "Nollywood" fez a comédia romântica 2016 "The Wedding Party" - são exceções à regra. O rápido progresso da indústria cinematográfica nos últimos 15 anos na Nigéria levou à abertura de cinemas modernos administrados por várias redes diferentes nas maiores cidades. As 130 telas em cerca de 30 locais levaram 95 milhões de dólares na bilheteria em 2015 na Nigéria, enquanto os cinemas sul-africanos ganharam 76 milhões da moeda, segundo dados da PricewaterhouseCoopers. Na maioria dos países, os filmes de sucesso dos Estados Unidos dominam os lançamentos porque são os que ganham mais dinheiro pela demanda pública e "por falta de apoio do estado", diz Bejani.

A diretora franco-gabonesa, Samantha Biffot, lamenta a falta de filmes africanos. "Os cinemas precisam pesquisar nosso trabalho, porque a maioria dos filmes africanos só pode ser visto em festivais ou no exterior", diz ela. O funcionário da FESPACO, Ardiouma Soma, argumenta que o gosto africano pelos filmes é amplo, desde blockbusters até o cinema artístico. "O público africano gosta de filmes africanos", diz Soma, declarando que os novos locais são "uma oportunidade a ser aproveitada".


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