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  • 06/01/2018
  • 09:54
  • Atualização: 10:35

"Uma mulher fantástica", filme chileno sobre diversidade disputa Globo de Ouro

Obra concorre na categoria de melhor filme estrangeiro

Diretor Sebastián Lelio e atriz Daniela Vega são as atrações de Uma mulher fantástica  | Foto: John MacDougall / AFP / CP

Diretor Sebastián Lelio e atriz Daniela Vega são as atrações de Uma mulher fantástica | Foto: John MacDougall / AFP / CP

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  • AFP

Com uma história que reflete a nova cadência de um cinema chileno que apostou nos últimos anos na diversidade temática, "Uma mulher fantástica" disputará no domingo o Globo de Ouro, contando sem rodeios a luta de uma transexual. "Um ato de amor cinematográfico". Foi assim que o jovem diretor chileno Sebastián Lelio definiu a fita, que concorre na categoria de melhor filme estrangeiro e que tem na atuação da transexual Daniela Vega um de seus pontos mais altos.

O roteiro - coescrito por Lelio e Gonzalo Maza, contemplado com o Urso de Prata no Festival de Berlim - conta a história da luta de Marina (Vega), uma jovem transexual de origem humilde, para se despedir do companheiro, Orlando (Francisco Reyes), um homem divorciado 20 anos mais velho e pai de família que morre de repente. O relato mostra Marina confrontada com a fúria da família, que se envergonha de que o falecido tenha entregado seu amor a uma transexual, despertando preconceitos que invadem diariamente a comunidade trans no Chile e no mundo.

"É um filme atrevido, com um excelente roteiro e atuações maravilhosas, filmado por Leilo e produzido pelos Larraín (Pablo e Juan de Dios, considerados os messias do cinema nacional) de forma delicada", comentou à AFP Jorge López Sotomayor, presidente da Associação de Diretores e Roteiristas do Chile (ADG). "É um filme maduro", acrescentou.

Uma moda que veio para ficar

Para Sotomayor, o cinema chileno está na moda e o filme de Lelio é um representante fiel do êxito obtido nos últimos anos pela indústria cinematográfica local. O desafio é manter a qualidade e avançar na bilheteria local, sem descuidar a vitrine internacional, acrescenta o diretor.

Caído o pano da sangrenta ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), que deixou mais de 3.200 mortos e desaparecidos, o cinema sentiu a necessidade de contar histórias sobre esse horror. Mas nos últimos anos, abriu-se o leque. "Nos últimos anos, tem havido um aumento de diversidade temática fenomenal, que dá para tocar temas incômodos em muitos âmbitos, de muitas perspectivas diferentes e isso é reconhecido e celebrado em nível internacional", destacou Sotomayor.

O caminho iniciado por Pablo Larraín com "No" e "O Clube", e seguido pelo próprio Leilo com "Gloria", filmes consagrados em festivais ao redor do mundo, deu-lhe ao Chile uma presença inédita na cena internacional. "Uma mulher fantástica" é o quarto filme chileno indicado aos prêmios entregues pela Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood, depois de "Neruda" e "O Clube", de Larraín, e "A Criada", dirigido por Sebastián Silva, que disputou um Globo de Ouro em 2010.

Uma vitória do filme de Lelio no domingo daria a um filme chileno seu primeiro Globo de Ouro. Para consegui-lo, "Uma mulher fantástica" terá que desbancar "The Square: a arte da discórdia", do sueco Robert Östlund; o alemão "In the fade", de Fatih Akin; o russo "Loveless", de Andrei Zvyagintsev, e o cambojano "First They Killed My Father", dirigido por Angelina Jolie.

Uma ode à diversidade

O drama que busca acabar com rótulos e levar à reflexão de porque se complica algo tão simples quanto o amor entre duas pessoas, serviu de tribuna para sua protagonista. Ovacionado em festivais, Vega apareceu recentemente na capa da revista W Magazine ao lado de Robert Pattinson, um dos novos rostos de Hollywood, confirmando que sua personagem ultrapassou os limites da tela e conquistou a indústria.

Em entrevista à AFP, Vega reconheceu que sua história pessoal não se assemelha à de Marina. Mas ela é consciente do preço social que representa ser trans no Chile. "Não tenho pretensões de ser referência para ninguém, nem de nada", afirmou Vega, que se disse confiante de que o filme possa servir de ajuda para quem precise conhecer a realidade dos trans e ter empatia com o tema.

Para Juan Enrique Pi, presidente da fundação Iguales, o êxito do filme "é uma boa notícia". "Seu êxito serve para dar visibilidade para milhares de pessoas que vivem no Chile e que pertencem a grupos discriminados", afirmou, em um momento em que o Congresso chileno discute um projeto de lei que regulariza a situação das pessoas transexuais.