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  • 01/02/2018
  • 08:58
  • Atualização: 12:45

“A Forma da Água” desconstrói o amor e critica o cinismo da realidade

Dirigido por Guillermo del Toro e indicado a 13 categorias no Oscar, filme estreia nesta quinta nos cinemas brasileiros

Sally Hawkins protagoniza o longa vencedor do Festival de Veneza | Foto: Kerry Hayes / Divulgação /CP

Sally Hawkins protagoniza o longa vencedor do Festival de Veneza | Foto: Kerry Hayes / Divulgação /CP

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  • Eric Raupp

Grandes filmes nem sempre são obras fáceis de se digerir. Eles podem ser tão ousados quanto um musical dos Anos Dourados de Hollywood, brutais como uma produção noir, sensíveis como um romance de época. Podem ainda transportar os telespectadores para um mundo utópico, metafórico, paralelo ao real. Às vezes, reúnem todas essas características, como “A Forma da Água”, longa que chega aos cinemas nesta quinta-feira. Não à toa vencedor do Leão de Ouro no festival de Veneza em 2017 e líder de indicações ao Oscar deste ano, esta fábula do diretor mexicano Guillermo del Toro, evoca ao mesmo tempo lágrimas e risos, numa amálgama que faz jus à concepção do cinema como a Sétima Arte.

O enredo acompanha um assunto retratado sem piedade nas telonas: o amor. Ambientada em 1962, em uma base militar secreta do governo dos Estados Unidos, a história acompanha Elisa Esposito (a irreverente Sally Hawkins), uma mulher muda que trabalha na limpeza do espaço. Imersa em uma rotina tediosa, ela começa o dia colocando ovos para cozinhar. Na banheira, enquanto um temporizador mecânico marca os minutos até a comida ficar pronta, ela pratica seu ritual de auto-prazer. Seus únicos amigos são seu recluso vizinho Giles (o sempre preciso Richard Jenkins) e a colega Zelda (a carismática Octavia Spencer) e, por isso, ela se sente solitária e anseia por encontrar uma conexão sentimental com outra pessoa. A situação muda quando cientistas capturam na Amazônia uma criatura aquática e a levam para o laboratório local, com o intuito de estudá-la e fazer experiências com ela na tentativa de vencer os soviéticos no auge da Guerra Fria.

A protagonista aos poucos se aproxima deste ser e encontra nele, também sem voz, a conexão tão aguardada. Quando possível, ela leva ovos para ele e tenta se comunicar. O afeto logo vira amor e ela embarca numa jornada pitoresca para tirá-lo do cativeiro. Contudo, terá de enfrentar o agente Richard Strickland (o incrível Michael Shannon), chefe de segurança do laboratório responsável por tomar conta da criatura. Uma construção que segue os arquétipos clássicos dos contos de fadas: a dama, o pretendido e o vilão. Uma estruturação simples, mas ainda assim, aqui, fantástica, tanto em gênero fílmico quanto em adjetivo para caracterizar a produção. Afinal trata-se de uma mulher com um homem-anfíbio, adorado em sua terra como um Deus. A bela não se encaixa nos padrões de beleza das princesas. A fera não é um monstro a ser domado. São representações alegóricas do eu com o outro, o desconhecido, comumente tratado com apreensão e hostilidade. Esta metáfora é apenas a porta de entrada para o universo mágico de del Toro.

Existe um cuidado inequívoco aplicado em cada quadro do filme e que reflete num padrão de qualidade estética que o diretor já demonstrara em “O Labirinto do Fauno”. Perceptivelmente é um filme feito por quem ama o cinema e tem os mínimos cuidados para amarrar todas as pontas e buscar a excelência. Diferentemente da obra que o lançara ao estrelato, agora, del Toro aposta menos no efeitos especiais para gerar o mundo ao redor dos personagens e situa a história em ambientes corriqueiros - o apartamento, o local de trabalho e até mesmo o cinema. Nestes locais, encontra espaços para mergulhar numa vastidão de sentimentos - da ira psicopática e caricata de Strickland ao olhar de desamparo de Elisa -, numa jornada que reduz os momentos verossímeis da trama à superficialidade, tornando-os existentes apenas para dar continuidade à narrativa. Isso não é um problema, tendo em vista sua natureza fantástica, mas alguns certamente não conseguirão engolir simplificações como a facilidade de fuga da base militar e a simplificação do mecanismo político da Guerra Fria.

A tensão do conflito não existe senão em momentos em que os soviéticos articulam artimanhas para sabotar os EUA, ainda que isso seja retratado sem profundidade. Mero acessório para construir o enredo. Contudo, há inquietudes e angústias em situações nas quais o longa assume traços de suspense: Elisa vai conseguir salvar o amado? Onde a criatura foi parar? Estes momentos, assim como as demais cenas, são regidos por Alexandre Desplat, que oferece uma sonoplastia de qualidade e que flutua com leveza, ondulada pelos barulhos da água (onipresente na película, está na chuva, nas gotas na janela do ônibus, na banheira, na chaleira, no vazamento dos canos, no homem-anfíbio a nadar no reservatório em que é mantido) aos momentos mais enérgicos, como nas diversas homenagem à Era de Ouro do cinema. O vizinho Giles é fã de programas musicais e, muitas vezes, as canções que tocam em sua televisão servem como trilha para o próprio espectador, que vê o homem sapatear com a amiga. Elisa por sua vez, sapateia sozinha enquanto caminha pelo corredor do prédio em que mora. Ouvindo canções de amor, Elisa também dança em frente a criatura, agarrada na vassoura que usa para varrer o chão. Há inclusive, espaço para um número musical em preto e branco.

Essas situações destoam do tom sombrio que rege a produção, mas reforçam o escapismo oferecido pelo filme. Cada tempo recebe a fábula que merece. O presente merece a que del Toro tem para oferecer. Ainda que esteja situada nos anos 1960, esta comovente fantasia visual toca em temáticas atuais o bastante para serem ignoradas, como o medo ao estranho, a exclusão, a austeridade aos de fora, o preconceito racial, a necessidade tola do homem de mostrar-se superior às mulheres. A maldade flui, sobretudo, em Strickland: sisudo, ele carrega uma espécie de bastão com o qual dá choque na criatura; viril, não lava as mãos depois de fazer xixi. Em certo momento, ele faz um discurso desagradável, incorporando o racismo e o sexismo da época, apresentando-se como um mini-Deus, soberano, dono de si, e exemplificando o porquê do filósofo Emmanuel Levinas ter escrito que “o humano é um escândalo do ser, uma doença do ser”.

“A Forma da Água”, acima de tudo, é atual pois aborda a urgência de empatia, compaixão, amor. Afinal, sem isso, seríamos realmente humanos? É basicamente este o questionamento que permeia a protagonista quando ela pondera se deve se arriscar e tentar salvar o homem-anfíbio das experiências científicas que o esperam no laboratório. Ainda que não fale em cena, Sally Hawkins apresenta uma performance arrebatadora, circunscrita na força explêndida de expressão em tela, do riso ao choro, da alegria à raiva, usada para dar vida a uma mulher complexa que mescla traços de fragilidade e determinação para cumprir seus objetivos. Seria fácil apelar ao burlesco para interpretar apenas com o olhar e a linguagem de sinais, mas a artista nunca ultrapassa a linha entre exagero e sutileza. Pelo contrário, caminha corajosamente pela corda bamba que as separa para preencher o silêncio que atravessa a protagonista. Se del Toro criou a película, quem dá a sua forma não é outra pessoa senão a atriz.

O longa não abre mão dos clichês dos contos de fadas para apresentá-los numa grande metáfora sobre a vida reforçando a fé na humanidade quanto à tolerância ao desconhecido. Se nas tradicionais histórias do estilo o puritanismo reina, aqui não há escrúpulos. Numa análise crua, a relação inesperada de Elisa com o homem-anfíbio tem tudo para cair o grotesco por sua natureza conflitante, mas a criatura é desconstruída de forma a revelar que, por trás de todas as cicatrizes de seu corpo robusto, há um coração pulsante. As aparências pouco importam. Neste antídoto perfeito contra o cinismo que fere as emoções, conforme o próprio cineasta gosta definir sua obra, o filme oferece uma fuga da realidade num período em que o amor é cada vez mais censurado e reprimido e faz uma ode às diferenças. Pelo menos neste refúgio, tal qual a água, volúvel e insípida, o amor pode assumir qualquer e forma e se espalhar por todos os lados.