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  • 22/12/2016
  • 15:00
  • Atualização: 15:45

Exposição em Porto Alegre apresenta a fotoetnografia de Leonore Mau

Mais de 130 imagens da alemã fazem parte da mostra no Goethe-Institut

"Festa na favela da Mangueira", Rio de Janeiro, 1969 | Foto: Leonore Mau / Reprodução / CP

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O casal alemão Hubert Fichte e Leonore Mau tiveram um relacionamento e estilo de vida fora dos padrões: abertamente bissexuais, eram adeptos da poligamia, e, fascinados por culturas afro-americanas, rodaram a América do Sul durante as décadas de 1960 e 1980 a fim de desmistificar a população deste lugar. Ele, novelista, escrevia sobre o povo local, e ela fotografava, imortalizando o cotidiano de onde passavam. Para homenagear a fotógrafa, que morreu há três décadas e ainda tem o trabalho pouco difundido no Brasil, o Goethe-Institut Porto Alegre (24 de Outubro, 112) realiza até 1º de abril de 2017 a exposição “A casa de Leonore Mau”, a qual traz imagens exibidas de forma inédita no país.

Ao todo, 130 obras, escolhidas pelo professor e pesquisador do Instituto de Artes da UFRGS Alexandre Santos na Fundação S. Fischer, em Hamburgo, na Alemanha, compõem o acervo da mostra. Elas foram feitas pela artista em três viagens pelo Brasil e incluem registros das passagens pela Bahia, pelo Rio de Janeiro, por São Luís do Maranhão e por Porto Alegre. A iniciativa integra o projeto regional “Hubert Fichte – Liebe und Ethnologie” (Amor e Etnologia), que conta com a participação de vários Institutos da América do Sul.  A visitação acontece de segunda a sexta-feira, das 10h às 19h30min, e aos sábados das 10h às 12h30min.

A fotógrafa:

Leonore Mau nasceu em 1916 em Leipzig, no leste alemão, e se tornou fotógrafa a partir de 1953, aos 37 anos de idade. Calada e discreta, antes de tudo uma observadora, ela, de origem abastada, mas não burguesa, falava cinco idiomas e abdicou de sua vida confortável com o arquiteto Ludwig Mau, 20 anos mais velho que ela, na mansão do rico bairro Blankenese, em Hamburgo. Naquela época, ela já fotografava com uma câmera Leica entre outras para a revista Schöner Wohnen. Depois de criar os dois filhos, Michael e Ulrike, ela seguiu caminho com ainda desconhecido escritor Hubert Fichte, 20 anos mais jovem, com quem passou a viver em um pequeno apartamento de um quarto na rua Elbchaussee.

Eles então embarcaram para uma viagem pelo mundo, onde esperavam registrar suas peculiaridades. “Você fotografa / Eu escrevo. / Nós nos visitamos./ Você faz de mim um grande poeta. / E eu faço de você uma grande fotógrafa" era o plano proposto por Jäcki, alter ego literário de Fichte, e Irma, que carregava traços biográficos de Leonore, no romance "Der kleine Hauptbahnhof oder Lob des Strichs" ("A pequena estação de trem ou o elogio do trottoir", 1988). Eles começam sua trajetória de maneira sinérgica: Portugal, Roma, em 1969 a primeira viagem ao Brasil. 

Os trabalhos dos amantes exibem uma unidade rara até então entre texto poético e fotografia. Ambos os autores seriam impensáveis sem sua tradução recíproca de percepção e olhar. A foto de um jovem africano com uma máscara de blíster nos olhos, tirada no benin, rendeu a Leonore o Prêmio World Press em 1975. A partir daí, ela viajou a Nova Iorque, Venezuela, Trinidad e Tobago, e documentou cultos de transe, rastreando suas origens de volta à África. Entre 1974 e 1978, Mau e Fichte dedicaram-se à documentação de aldeias de pessoas com distúrbios psiquiátricos no Senegal.

Em 1976, era publicado o livro de fotos de Mau "Xango. Die Afroamerikanischen Religionen. Bahia Haiti" Trinidad ("Xangô. As religiões afroamericanas. Bahia Haiti Trinidad"), com textos de Fichte. São pesquisas etnopoéticas, nas quais imagem e palavra se iluminam mutuamente. Depois disso, os dois voltaram-se de novo para os vestígios das religiões afroamericanas: Miami, Grenada, Nicarágua e Haiti. Em 1981, fizeram uma última viagem juntos ao Brasil. Depois da morte do marido, em 1986, a artista publicou dois livros: "Psyche" ("Psique", 2005) e "Die Kinder Herodots" ("Os filhos de Heródoto", 2006) junto com Roland Kay, esposo de Pina Bausch de quem era amiga.

Em 1987, ela fotografou a série "Wuppertaler Architektur" ("Arquitetura de Wuppertal") e no ano seguinte uma série de perfis da companhia de dança de Pina. Entre 1990 e 2004, ela criou naturezas-mortas sob o título de "Fata Morgana": para isso, construiu e fez colagens muito livres de máscaras, esculturas e lembranças com faca e máscara, luvas de borracha, etc. Leonore morreu no dia 22 de setembro de 2013, em Hamburgo.