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  • 04/12/2016
  • 11:55
  • Atualização: 13:48

Morre, aos 86 anos, o poeta Ferreira Gullar

Escritor estava internado no Rio de Janeiro

Morre, aos 86 anos, o poeta Ferreira Gullar | Foto: ABL / Divulgação / CP

Morre, aos 86 anos, o poeta Ferreira Gullar | Foto: ABL / Divulgação / CP

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  • Correio do Povo e Agência Brasil

Um dos mais importantes nomes da literatura brasileira, o poeta Ferreira Gullar morreu neste domingo, aos 86 anos. Ele estava internado no Hospital Copa D'Or, na zona Sul do Rio de Janeiro, e estaria com um quadro de insuficiência respiratória e pneumonia, apontada como causa da morte. Ainda não há informações sobre o velório.

Além de poeta, Gullar era ensaísta, crítico de arte, dramaturgo, biógrafo, tradutor e memorialista. Quarto dos 11 filhos de Newton Ferreira e Alzira Ribeiro Goulart, ele nasceu José de Ribamar Ferreira no dia 10 de setembro de 1930 em São Luiz, no Maranhão. Dividiu os anos da infância entre a escola e a vida de rua, jogando bola e pescando no Rio

Bacanga.

No começo, acreditava que todos os poetas já haviam morrido e somente depois descobriu que havia muitos deles em sua própria cidade, a algumas quadras de sua casa. Com 18 anos, passou a frequentar os bares da Praça João Lisboa e o Grêmio Lítero-Recreativo, onde, aos domingos, havia leitura de poemas.

Descobriu a poesia moderna apenas aos 19 anos, ao ler os poemas de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Ficou escandalizado com esse tipo de poesia e tratou de informar-se, lendo ensaios sobre a nova poesia.

Pouco depois, aderiu a ela e adotou uma atitude totalmente oposta à que tinha anteriormente, tornando-se um poeta experimental radical, que tinha como lema uma frase de Gauguin: "Quando eu aprender a pintar com a mão direita, passarei a pintar com a esquerda, e quando aprender a pintar com a esquerda, passarei a pintar com os pés".

Ou seja, nada de fórmulas: o poema teria que ser inventado a cada momento. "Eu queria que a própria linguagem fosse inventada a cada poema", diria ele mais tarde. Assim nasceu o livro que o lançaria no cenário literário do país em 1954: "A Luta Corporal".

Os últimos poemas deste livro resultam de uma implosão da linguagem poética e provocariam o surgimento na literatura brasileira da "poesia concreta", de que Gullar foi um dos participantes e, em seguida dissidente, passando a integrar um grupo de artistas plásticos e poetas do Rio de Janeiro: o grupo neoconcreto. O movimento neoconcreto surgiu em 1959, com um manifesto escrito por Gullar, seguido da teoria do não-objeto. Esses dois textos fazem hoje parte da história da arte brasileira, pelo que trouxeram de original e revolucionário. São expressões da arte neoconcreta as obras de Lygia Clark e Hélio Oiticica, hoje nomes mundialmente conhecidos.

Experiências

Gullar levou suas experiências poéticas ao limite da expressão, criando o "Livro-Poema" e, depois, o "Poema Espacial", e, finalmente, o "Poema Enterrado". Este consiste em uma sala no subsolo a que se tem acesso por uma escada; após penetrar no poema, deparamo-nos com um cubo vermelho; ao levantarmos este cubo, encontramos outro, verde, e sob este ainda outro, branco, que tem escrito numa das faces a palavra "rejuvenesça".

O poema enterrado foi a última obra neoconcreta de Gullar, que afastou-se do grupo e integrou-se na luta política revolucionária. Entrou para o Partido Comunista e passou a escrever poemas sobre política e participar da luta contra a ditadura militar que havia se implantado no país, em 1964. Foi processado e preso na Vila Militar. Mais tarde, teve de abandonar a vida legal, passar à clandestinidade e, depois, ao exílio. Deixou clandestinamente o país e foi para Moscou, depois para Santiago do Chile, Lima e Buenos Aires.

Voltou para o Brasil em 1977, quando foi preso e torturado. Libertado por pressão internacional, voltou a trabalhar na imprensa do Rio de Janeiro e, depois, como roteirista de televisão. Durante o exílio em Buenos Aires, escreveu "Poema Sujo", um longo poema de quase cem páginas e que é considerado sua obra-prima. Esse poema causou enorme impacto ao ser editado no Brasil e foi um dos fatores que determinaram a volta do poeta a seu país.

De volta ao Brasil, Gullar publicou, em 1980, "Na vertigem do dia" e "Toda Poesia", livro que reuniu toda sua produção poética até então. Voltou a escrever sobre arte na imprensa do Rio e São Paulo, publicando, nesse campo, dois livros "Etapas da arte contemporânea" (1985) e "Argumentação contra a morte da arte" (1993), onde discute a crise da arte contemporânea.

Outro campo de atuação de Ferreira Gullar é o teatro. Após o golpe militar, ele e um grupo de jovens dramaturgos e atores fundou o Teatro Opinião, que teve importante papel na resistência democrática ao regime autoritário. Nesse período, escreveu, com Oduvaldo Vianna Filho, as peças "Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come" e "A saída? Onde fica a saída?".

De volta do exílio, escreveu a peça "Um rubi no umbigo", montada pelo Teatro Casa Grande em 1978. Gullar afirmava que a poesia era sua atividade fundamental. Em 1987, publicou "Barulhos" e, em 1999, "Muitas Vozes", que recebeu os principais prêmios de literatura daquele ano.

Durante sua trajetória, obteve diversos prêmios e láureas, incluindo uma indicação ao Nobel de Literatura em 2002. Em 2010, recebeu o Prêmio Camões, mais importante premiação literária da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Um ano depois, também venceu o Prêmio Jabuti com o livro "Em alguma parte" - ele já havia conquistado a premiação em 2007, pelo livro "Resmungos", que reúne crônicas publicadas no jornal "Folha de São Paulo".

Ferreira Gullar foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL), em 2014, ocupando a cadeira nº 37. Também recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por meio da Faculdade de Letras da instituição.