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  • 07/10/2017
  • 09:23
  • Atualização: 09:27

Uma jornada plural em Passo Fundo

Durante cinco dias, a cidade gaúcha viu retomar seu evento literário, que reuniu mais de 22 mil pessoas

Jornada de Literatura foi aberta com espetáculo que homenageou Clarice, Drummond, Suassuna e Scliar | Foto: Alina Souza

Jornada de Literatura foi aberta com espetáculo que homenageou Clarice, Drummond, Suassuna e Scliar | Foto: Alina Souza

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  • Correio do Povo

A 16ª Jornada Nacional de Literatura foi durante cinco dias, de segunda a sexta passada, tudo o que se espera de um evento literário, foi plural, diverso, abrangeu todas as literaturas, teve espaço para manifestações políticas, espetáculo grandioso de abertura e foi certeira ao homenagear quatro grandes nomes da literatura brasileira: Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Ariano Suassuna e Moacyr Scliar, reunindo 2,5 mil pessoas por noite e mais de 20 mil crianças na 8º Jornadinha.

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Um dos pontos altos da Jornada foi a mesa “Centauro, pedra, rosa e estrela: Scliar, Suassuna, Drummond, Clarice”, realizada na quarta à noite, no Espaço Suassuna, com capacidade para 2,5 mil pessoas. Os convidados a prestar essa homenagem foram Ricardo Silvestrin, Bráulio Tavares, Cintia Moscovich e Nádia Battella Gotlib. O nome da mesa foi relacionado a obras dos autores homenageados: Centauro, de “O Centauro no Jardim”, de Moacyr Scliar; Pedra, de “Romance da Pedra do Reino”, de Ariano Suassuna; Rosa, referência à obra “A Rosa do Povo”, de Carlos Drummond de Andrade; e Estrela, do livro “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector. A mesa foi conduzida pelos coordenadores Augusto Massi, Felipe Pena e Alice Ruiz.

Considerada a principal biógrafa de Clarice, Nádia Battella Gotlib tratou da profundidade intimista que é a autora: “Quando embarcamos com ela, nunca sabemos onde vai dar”. Nádia também trouxe o DNA Lispector. As duas irmãs de Clarice, Elisa e Tania, têm suas produções e já publicaram livros, principalmente Elisa, que tem 10 obras – sete romances e três livros de contos.

Para a biógrafa de Clarice, ter contato com isso foi fonte rica e gratificante. “Lembro de quando me mostraram um álbum de fotografias da família. “Era um álbum grosso, de capa de couro e fecho já oxidado. A primeira foto que eu vi foi a dos avós”, lembrou. Cintia Moscovich era amiga pessoal de Scliar. “Scliar tinha um desejo incontrolável de escrever, com cerca de 100 livros. Ele ajudava a todos. Talvez escrevesse para tentar corrigir as coisas erradas do mundo. E escrevia em qualquer lugar. Tinha uma concentração rápida e sabia de todos os assuntos do mundo, além de escrever de forma muito elegante”, revelou. Sobre Scliar, Cintia conta que era um homem “politicamente correto”, cordial e generoso. “Nunca ouvi nenhuma história sobre Scliar que tivesse caso de palavras ásperas. Só ouvi histórias de generosidade”, contou.

Bráulio Tavares é um conhecedor da trajetória de Ariano Suassuna. “Além de um iconoclasta, Suassuna foi também um grande professor capaz de desconstruir os assuntos mais sérios e ao mesmo tempo continuar sério. O Ariano que conheci era uma usina de dinamismo verbal”, ressaltou. Drummond foi definido por Silvestrin como “Um poeta difícil”.

Conhecido por manipular as palavras escritas, faladas e cantadas, Silvestrin lembrou as várias faces de Drummond — poeta, contista e cronista. “Era um escritor que considerava inadmissível que alguém se baseasse em sua obra. “‘Vá criar sua própria poesia’, dizia. Para ele, a poesia era o que ainda estava para ser escrito‘”, contou, destacando o olhar cronista do poeta: “um olhar para o mundo”.

Outro destaque do evento foi a 3ª Festa Literária da Comunicação – Flicom, realizada na terça e quarta-feira, no Auditório do Laboratório Central de Informática da UPF, que mostrou a força do pensamento da literatura na comunicação e também postura política forte. Na terça, duas mesas tiveram grande força. A primeira foi “Fronteiras entre ficção e realidade nas narrativas contemporâneas” e a segunda “Iconoclastia, história e narrativas políticas”.

Felipe Pena mediou a primeira mesa, com os jornalistas e escritores Luize Valente, Henrique Rodrigues e Fernando Molica. No centro do debate esteve o bem contar uma história que a narração jornalística e a narração ficcional têm em comum, com a diferença que uma trata de personagens reais e a outra se vale de personagens criados. “No jornalismo, na reportagem, o que fazemos é contar uma história que aconteceu. São fatos reais, pessoas que existem. Contamos uma verdade na melhor versão possível”, disse Molica.

Já na ficção, segundo ele, pode-se usar de um pano de fundo real, mas os personagens são criados. Luize Valente analisa que na ficção é mais fácil transitar com personagens, mesmo que o pano de fundo seja real. “A história é ficcional e é preciso adaptar o personagem ao que aconteceu.” Na segunda mesa, os participantes foram o coordenador do Caderno de Sábado, Juremir Machado da Silva, Felipe Pena e Ariele Cardoso, mediados por Ana Sparremberger.

Juremir defendeu o direito ao ressentimento, lembrando que os seus livros como “Raízes do Conservadorismo Brasileiro” e “Jango – Vida e Morte no Exílio” têm pesquisa histórica, texto de escritor e investigação jornalística e que vendem 10 mil exemplares ou mais e não são dignos de nota na grande imprensa do centro do país ou são avaliados negativamente pela Capes.

Felipe Pena lembrou que o jornalismo precisa de todos os lados, da tese e da antítese para chegar à síntese, principalmente quando o assunto é política ou para combater as fake news. “O golpe de 31 de agosto de 2016 foi contra uma presidente legítima, mas também nas relações afetivas. Quantas brigas não tivemos no almoço de domingo? Precisamos ser mais iconoclastas”, afirmou Pena, lembrando de uma pergunta que Millôr Fernandes fez a ele certa vez: “O que você faz para fazer dos seus alunos, iconoclastas?”.

Ariele Cardoso destacou a longa trajetória de cinco séculos de golpes no país, começando com o Descobrimento do Brasil, passando pela Independência, Proclamação da República até Estado Novo, o de 1964 até o “golpe” de 2016. “Saí do jornalismo à antropologia e voltei para pesquisar as representações identitárias na mídia, o jornalismo alternativo. Acho que o jornalismo precisa dar voz à pluralidade da sociedade. Em pesquisa do Instituto JFK, sabemos que apenas 29% dos brasileiros confiam na mídia, nos veículos de comunicação, mas 64% confiem nos jornalistas. Precisamos transformar, ser utópicos”, frisou.