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  • 18/11/2017
  • 09:19
  • Atualização: 09:51

Meio século sem Guimarães Rosa deixa dúvidas da linguagem como arte narrativa

Para crítico literário, o autor fez da linguística um elemento de sua ficção

Meio século sem Guimarães Rosa deixa as dúvidas da linguagem como arte narrativa  | Foto: Academia Brasileira de Letras / CP Memória

Meio século sem Guimarães Rosa deixa as dúvidas da linguagem como arte narrativa | Foto: Academia Brasileira de Letras / CP Memória

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  • Eron Duarte Fagundes

João Guimarães Rosa faleceu há 50 anos. Sua obra testamentária, o livro de contos Tutameia (1967), publicada poucos meses antes de sua morte, está completando este meio século. O ficcionista de “Grande Sertão: Veredas" (1956) faz de “Tutameia” seu texto-testamento: 40 histórias curtas e quatro prefácios-ensaio que são histórias sobre o próprio processo de escrever.

Na sua visão do sertão brasileiro, Rosa pode ser pensado junto com aquele universo de Graciliano Ramos, um sertão realista, e aquele vislumbrado por Euclides da Cunha, cartesiano apesar de tudo. No último prefácio, “Sobre a escova e a dúvida”, o narrador anota: “Meu duvidar é da realidade sensível aparente — talvez só um escamoteio das percepções. Porém, procuro cumprir. Deveres de fundamentos da vida, empírico modo, ensina: disciplina e paciência. Acredito ainda em outras coisas, no boi, por exemplo, mamífero voador, não terrestre. Meu mestre foi, em certo sentido, o Tio Candido.” Quem é Candido? Nos parágrafos seguintes, o prefaciador fala “num pequeno fazendeiro, suave trabalhador, capiau comum, aninhado em meios-termos, acocorado”; mas se impõe pensar no grande pensador da literatura brasileira no século XX, o mestre tio Antônio Candido.

Guimarães Rosa não logra nunca escrever dentro do padrão comum de texto. “Propor uma reflexão a respeito do caráter subversivo da obra de Guimarães Rosa”, lembrou a escritora gaúcha Alessandra Rech em seu luminoso ensaio Na entrada-das-águas, amor e liberdade em Guimarães Rosa (2010). No conto “Barra da Vaca” está, em abertura: “Sucedeu então vir o grande espírito entrando no lugar, capiau de muito longínquo: tirado à arreata o cavalo raposo, que mancara, apontava de noroeste, pisando o arenoso.”

Um profeta do idioma, mergulhado naquilo que o sertão tem de arcaico e futurista, o narrador de Rosa ataca em “Faraó e Água do Rio”: “As tachas pertenciam à Fazenda Crispins, de cem anos de eternidade.” A expressão, que começa com “cem anos”, conduz ao seguinte: 1967 foi também o ano da publicação de outro monumento da literatura latino-americana, “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez. No primeiro prefácio, o obscuro “Aletria e Hermenêutica”, a primeira frase ficou clássica: “A estória não quer ser história. A estória, em rigor, deve ser contra a História. A estória, às vezes, quer-se um pouco parecida à anedota.”

Fazendo da linguística um elemento de sua ficção, Rosa é hoje bastante combatido por alguns linguistas, que lhe exprobram erros etimológicos. Então a questão: Rosa se vale da linguística como dúvidas para sua arte de narrar e amplia sua liberdade de invenção para além da possível ciência da linguagem; demais, pode-se perguntar: seria a linguística uma ficção travestida de verdade científica? Há mesmo isso, ciência da linguagem? Cinquenta anos depois de seu último suspiro, Rosa e sua complexa obra-testamento, “Tutameia”, se põem como anteparos que ofuscam e iluminam, barrocamente, nossa maneira de enxergar as coisas e as letras por aqui.