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  • 03/03/2017
  • 15:14
  • Atualização: 15:20

Escritor argelino pede que artistas atuem mais contra extremismo

Boualem Sansal lamentou que a literatura e as artes não contam muito na luta contra a barbárie

Seu romance

Seu romance "2084 - O fim do mundo" imagina um país submetido à lei divina de um deus para o qual se deve rezar nove vezes por dia | Foto: François Guillot / AFP / CP

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  • AFP

O escritor argelino Boualem Sansal, autor de "2084", um conhecido romance que mostra o islamismo no poder no mundo, lamenta que os artistas não tenham um papel de maior destaque para contra-atacar a ameaça extremista.  "Atualmente, a literatura e as artes não contam muito nesta luta contra a barbárie", declarou o escritor. Sansal afirma que gostaria que os artistas e escritores se comprometessem mais "no combate ao fundamentalismo", fazendo uso da "palavra livre".

Reconhece, porém, que este compromisso é arriscado. Basta recordar os nomes dos escritores argelinos assassinados nos anos 1990 após uma fátua do Grupo Islâmico Armado (GIA) que condenava à "morte pela espada aqueles que nos combatam com a pluma". Ele próprio foi alvo de ameaças, mas decidiu continuar vivendo na Argélia.

Boualem Sansal, de 67 anos, manifestou sua liberdade de pensamento, tanto contra o poder argelino como contra o extremismo religioso, desde que se lançou à literatura, em 1999, sem interromper sua carreira de funcionário de alto escalão no governo. Obteve êxito desde o início graças a "O juramento dos bárbaros", um romance que narra a ascensão dos fundamentalistas na Argélia, que levou o país a uma década de guerra civil com um balanço de 200.000 mortos. Sua obra, que inclui também "O vilarejo do alemão" e "Rue Darwin", foi reconhecida com muitos prêmios, principalmente na França e na Alemanha.

Os livros de Sansal, editados na França e vendidos na Argélia abertamente, continuam sendo controversos, principalmente desde a sua visita a Israel em 2014. Seu último romance, "2084 - O fim do mundo", publicado em 2015, deu muito o que falar. Nele, o escrito imagina um país, o Abistão, submetido à cruel lei divina de um deus para o qual se deve rezar nove vezes por dia e onde as principais atividades são peregrinações intermináveis e o espetáculo das punições públicas.

Por que esta violência?

Quase 20 anos depois da sua estreia literária, Boualem Sansal, que se declara ateu, continua questionando as razões do "fenômeno da violência coletiva levada a um alto nível", o que para ele ainda é um "mistério inexplicado e inexplicável". "Foi o islamismo que produziu a violência para destruir a sociedade e tomar o poder ou é a violência da sociedade que se agarrou ao islã para se justificar?", se pergunta.  "Questionamos tudo: a economia, a política, as diversas ideologias, a religião, a história, a psicologia. Mas as respostas sempre acabam se mostrando insuficientes. Não abrangem a totalidade do fenômeno", observa o escritor.

Boualem Sansal não deixa de alertar a Europa, especialmente a França, onde vivem cinco milhões de muçulmanos, sobre os perigos do islamismo. "Não cabe a mim dar conselhos aos franceses e à França, mas lhes digo para prestarem atenção porque o islamismo ronda em torno deles e cresce sob os seus pés".  "Eles já sofreram, e poderiam sofrer mil vezes mais se este atingisse uma massa crítica que provocasse uma reação em cadeia", acrescenta. Seus posicionamentos geraram acusações de islamofobia, das quais se defende. "Nunca disse nada contra o Islã que justifique esta acusação. (...) O que não deixei de denunciar foi a instrumentalização do Islã com fins políticos e sociais", conclui.