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  • 07/11/2017
  • 14:55
  • Atualização: 16:43

Primeira orquestra Cubano-Americana constrói pontes culturais entre os países

Iniciativa surgiu após a viagem histórica da Orquestra de Minnesota a Havana em 2015

Os quatro estudantes cubanos têm aulas nos Estados Unidos | Foto: Courtney Perry / The Minnesota Orchestra / AFP / CP

Os quatro estudantes cubanos têm aulas nos Estados Unidos | Foto: Courtney Perry / The Minnesota Orchestra / AFP / CP

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  • AFP

Os pontos de interrogação novamente regem as relações Estados Unidos-Cuba, mas um elemento de engajamento está em frente - uma orquestra conjunta da juventude, que visa construir conexões tanto musicais como pessoais. Em uma iniciativa que surgiu após a viagem histórica da Orquestra de Minnesota a Havana em 2015, quatro estudantes da ilha caribenha viajaram este mês para a cidade do centro-oeste de Minneapolis para a aula inaugural da Orquestra da Juventude Cubano-Americana.

Nos Estados Unidos, os cubanos, que até a morte de Fidel eram praticamente impossibilitados de qualquer intercâmbio cultural, aprenderão com artistas experientes e encontrarão um terreno comum. "Eu acredito que a música é como um embaixador entre as duas nações. Os interesses pessoais não são colocados primeiro, é apenas a música", conta Adriel David Rodriguez Laza, violoncelista de 21 anos que faz parte do grupo que está nos EUA.

Durante a viagem que possibilitou a união - após a visita do ex-presidente Barack Obama há dois anos -, músicos de ambos os países tocaram juntos o "Octeto", de Mendelssohn. Eles esperam performar juntos no próximo ano como um grupo de câmara antes do objetivo de criar uma Orquestra da Juventude Cubano-Americana de tamanho completo, formada por estudantes de ensino médio, que realizaria uma turnê em 2019. "Queremos encontrar frases musicais juntos e compartilhar sentimentos musicais e emocionais juntos", disse Osmo Vanska, o maestro finlandês que é diretor de música da Orquestra de Minnesota. "Não há política na música. Essa é uma das grandes coisas. Podemos nos unir sem qualquer bagagem negativa da história".

Instrumentos próprios

Os quatro músicos cubanos selecionados se uniram depois de descobrir Giacomo Puccini no YouTube, criando o que chamaram de Quarteto Crisantemi após a peça elegíaca do mestre da ópera. Rodriguez tocava na sua universidade com um violoncelo emprestado de sua tia, mas nunca teve seu próprio instrumento - até agora. Ele e outra estudante - sua irmã, a violista Adriana Deborah Rodriguez Laza - ganharam seus próprios instrumentos após doações coletadas por Rena Kraut, diretora executiva da Orquestra Cubano Americana da Juventude.

"Fiquei muito feliz e muito emocionada. Fiquei quase sem palavras. Para comprar um violoncelo em Cuba, você precisaria de meses ou mesmo de anos" de salário”, analisou Rodríguez. Para o jovem, a perspectiva de trabalhar como músico clássico é assustadora em Cuba, um país com uma rica herança musical, mas mais identificado com ritmos de jazz, salsa e influência africana. "Sim, você pode viver de música, mas não de música clássica - de música cubana mais moderna que você brinca nas ruas", disse ele.

"É difícil ser um músico clássico em Cuba porque não é o que o público quer mais", disse ele, que também classificou a experiência em Minnesota como "magnífica". O jovem destacou que é uma experiência diferente de tudo que já viveu. "Os músicos americanos têm outra maneira de ver música. Eles têm outras oportunidades", comentou.

Diferentes sentimentos pela música

Kraut tomou conhecimento do potencial de aprendizado mútuo quando se dirigiu para Havana com a Orquestra de Minnesota, a primeira viagem por um grande conjunto clássico dos EUA em 15 anos. A orquestra praticou uma peça cubana e, em uma sessão, teve que convencer o ritmo. A audiência dos jovens ficou desconcertada com o sentido musical dos americanos. "Todo os estudantes pararam para nós disseram algo como, 'O que eles estão fazendo?'”, relembrou Kraut. "A sensação de conexão emocional inata com a música deles é muito mais avançada do que a dos estudantes norte-americanos em geral. Nós nos guiamos mais pelos livretos, enquanto eles tocam com o coração”, analisou.

Os alunos entraram nos Estados Unidos com relativa facilidade, com Washington fazendo exceções para os artistas mesmo quando o embargo sobre Cuba era mais apertado, e as empresas apoiaram o projeto. Kraut, que viajou para a União Soviética quando esta estava entrando em colapso, prometeu que o projeto da Orquestra vai perseverar, independentemente das incertezas políticas. "Esta é a diplomacia da arte em ação e só beneficia as pessoas de ambos os países. Eles têm muito a aprender", finalizou.