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  • 13/01/2018
  • 17:38
  • Atualização: 19:20

No Paquistão, séries televisivas desafiam conservadorismo ao abordarem tabus

Programas dividem audiência com seus temas considerados sensíveis

"Baaghi" reconta a história de Qandeel Baloch, assassinada pelo irmão em um "crime de honra" | Foto: YouTube / Divulgação / CP

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  • Correio do Povo

Ela sonhava em ser famosa e deixar uma marca em seu país, o Paquistão. Qandeel Baloch, estrela das redes sociais assassinada em nome da "honra" da família, conseguiu seu objetivo de forma póstuma graças a uma série de televisão. A jovem, que morreu estrangulada por seu irmão em 2016, é agora mais famosa do que nunca: seu trágico destino foi adaptado em um programa muito popular que, como outros do mesmo estilo, aborda tabus sociais de um país conservador. "Baaghi", que significa "rebelde", mostra o surgimento da garota de origem humilde que se tornou popular nos YouTube até os seus dias finais.

A série é transmitida todas as quintas-feiras no canal Urdu 1 e teve seu primeiro episódio visto mais de 1,6 milhões de vezes no YouTube. "Aquela garota era uma leoa, ela não deveria ter morrido tão cedo", lamenta um roteirista da série, Shazia Khan. O destino da Qandeel provocou reações misturadas no Paquistão. Alguns usaram sua morte para denunciar os chamados "crimes de honra", que reivindicam a vida de centenas de paquistaneses todos os anos e, muitas vezes, ficam impunes. Contudo, vozes mais conservadoras acusaram a jovem de ir muito longe com suas selfies e "vídeos provocativos" e a culpoum por causar a própria morte. A adaptação de sua história à televisão deu um novo impulso ao debate sobre esse tipo de crimes.

Outras séries falam sobre questões sociais como violência doméstica, casamentos forçados ou precoce, misoginia e direitos das mulheres. É o caso de "Mujhe Jeene Do" ("Deixe-me viver"), que aborda a questão dos casamentos infantis. "Quem saberá o que é um crime se não conscientizarmos as pessoas?", questiona a diretora Angeline Malik. Este tipo de programas tem tido sido um grande sucesso entre a população paquistanesa de 207 milhões de habitantes. Segundo o órgão de vigilância da mídia local, cerca de dois terços dos telespectadores assistiram em algum momento de 2016 a um dos canais que transmitiam essas produções.

E, de acordo com uma pesquisa do Gallup Institute, 67% dos telespectadores adultos e 56% dos homólogos masculinos assistem a programas de entretenimento, especialmente séries. "Seu sucesso pode transformar essas histórias em ferramentas progressivas muito poderosas", diz a advogada Benazir Jatoi, que trabalha para a Fundação Aurat, que cuida dos direitos das mulheres.

A Hum TV, o principal canal de entretenimento do país, é pioneira em abordar esse tipo de questões sociais. Em 2016, transmitiu "Uddari" ("Voo"), que contou a história de uma jovem agredida sexualmente por seu sogro, provocando um debate sobre violência sexual sofrida por crianças em suas casas. Outra série, "Sammi", trata de crimes de honra, casamentos e as dificuldades enfrentadas pelas mulheres ao recuperar parte de sua herança. Alguns não apreciam. Sultana Siddiqui, produtora de "Sammi", diz que sofreu pressão por parte dos reguladores e recebeu inúmeros comentários brutais nas redes sociais, onde foi acusada de vulgaridade e atacar os valores tradicionais.

Apesar de suas mensagens de mudança, esses programas provocam críticas até mesmo entre alguns progressistas pela maneira como mostram suas heroínas. Sadaf Haider, blogueira do portal de informações Dawn.com, criticou recentemente "Baaghi" por ter transformado Qandeel Baloch em um personagem sem autonomia, em uma vítima. "Qandeel assumia total responsabilidade por suas escolhas, então, por que ela é descrita de maneira totalmente diferente em 'Baaghi'?", perguntou.

Conforme a jornalista paquistanesa Fifi Haroon, a imagem das mulheres nesses programas continua a ser baseada em uma visão patriarcal. As "heroínas são primas", sempre têm "olhos molhados" e "sofrem em um silêncio obstinado ou um estoicismo barato", lamenta em um artigo para a BBC. Um perigo, de acordo com ela, já que o público "não só é composto de mulheres". "Os homens também estão cientes do que significa ser um homem na sociedade paquistanesa", adverte.