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  • 23/11/2016
  • 17:55
  • Atualização: 19:07

Grupos do condomínio cênico do Hospital São Pedro vivem período de incertezas

Com determinação de deixar o local, artistas estão sem acesso para retirar o material

Secretaria da Saúde reivindica local para reforma da sua estrutura | Foto: Ivan de Andrade / Palácio Piratini / CP

Secretaria da Saúde reivindica local para reforma da sua estrutura | Foto: Ivan de Andrade / Palácio Piratini / CP

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  • Correio do Povo

Ocupado por grupos teatrais há 16 anos, o Condomínio Cênico do Hospital Psiquiátrico São Pedro, espaço composto pelos pavilhões 5 e 6 da instituição, reinventou-se como um centro de promoção da cultura em Porto Alegre. Contudo, agora não são os personagens criados durante suas apresentações pelas companhias lá situadas que vivem um drama shakespeariano. Há quase 15 dias, o local foi interditado após uma vistoria do Corpo de Bombeiros, forçando o cancelamento da estreia do espetáculo “Mithos”. Na ocasião, chegou a ser registrada a agressão a um ator do Falos & Stercus.

Desde então, os integrantes do Falos & Stercus, Neelic, Oigalê, Povo da Rua e Caixa-Preta não têm acesso aos prédios históricos nos quais seus materiais de trabalho estão guardados. “O trabalho está parado, estamos de mãos atadas, sendo prejudicados. Tem um prejuízo que é social e que é financeiro”, comenta Desirée Pessoa, do Neelic. Por sua vez, a Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul afirma que foi oferecida uma alternativa aos artistas para recuperarem os equipamentos. “O prédio foi interditado por um laudo, então realmente não há acesso. Mas foram comunicados que se eles nos fizerem uma solicitação indicando dois ou até mesmo três nomes, disponibilizamos uma equipe de segurança que os acompanhará”, explica o Diretor Geral da pasta, Francisco Bernd.

A artista, porém, argumenta que é impossível fazer a retirada de todos os objetos e ferramentas com apenas duas pessoas, em função da grande quantidade armazenada e da logística de empacotamento, listagem e separação dos utensílios. Caso a situação não seja resolvida pela via administrativa, ela defende a opção por iniciativas jurídicas.

Historicamente, acordos de cooperação técnica entre as Secretarias da Cultura e da Saúde do Rio Grande do Sul, garantiram que os grupos ocupassem os dois pavilhões no epicentro do conflito - eles já foram palco de diversos espetáculos e até a 3ª Bienal do Mercosul, em 2001, também os utilizou. No entanto, inúmeras vezes os artistas já sofreram ameaças de serem despejados do local. Em janeiro deste ano, um ato pacífico ampliou debate sobre a utilização dos espaços, mesmo que em 2014, as companhias tenham assinado, com mediação do Instituto Estadual de Artes Cênicas (IACEN), um termo de cessão de uso do imóvel válido por um quinquênio.

Segundo o Secretário de Cultura, Victor Hugo Alves da Silva, o documento previa que qualquer uma das partes poderia, de modo unilateral, romper o trato. E foi justamente o que a Saúde fez, com o argumento de que planeja revitalizar as construções. O esboço, conforme o Bernd, se encontra em fase final de planejamento, uma etapa minuciosa, pois as obras devem respeitar a arquitetura e materiais do Hospital, tombado pelos poderes públicos. O objetivo é unificar as áreas de atividade administrativa e atendimento e construir um auditório e um museu de saúde mental no local onde as trupes cênicas estavam instalado até há pouco tempo.

Na defesa de sua permanência no Condomínio Cênico , os grupos ressaltam a fala da arquiteta que participou da reunião na última semana. Conforme registrado em ata, Miriam Rodrigues reconheceu o valor imaterial da produção teatral no espaço, além do valor material pelos cuidados tomados com os prédios, “o que garantiu que estes não sofressem de modo definitivo as ações do tempo”. Contudo, Bernd defende que a situação é de “extrema insalubridade” e que a permanência pode causar danos tanto aos atores quanto aos espectadores. “Desde 2008 sofremos pressão para a permanência, mas agora com o laudo dos bombeiros não podemos nos comprometer com a segurança de ninguém”, justifica. Para ele, a decisão é definitiva, e os artistas devem deixar o local.

Sem ter para onde ir, os grupos agora esperam por respostas do secretário Victor Hugo, que apresentou algumas alternativas numa reunião na última semana. No encontro, que se encerrou sem uma definição sobre o caso, ele explicou que está em busca de instalações nas quais os artistas possam se firmar. “Ele segue trabalhando nessa questão, fazendo contato com os possíveis locais”, afirmou a Secretaria de Cultura por meio de sua assessoria de imprensa, que também garantiu que esta é a prioridade, enquanto a escolha de um local definitivo fica em segundo plano. Uma das possibilidades é que um nova instalação permanente seja obtida apenas por uma licitação.

Desirée lamenta que mesmo que os grupos possam concorrer, não há garantias de que serão contemplados e permanecerão juntos. “Então, nós estamos muito tristes, não no sentido sentimental, no sentido político mesmo, sem referência, desesperançosos, não sabemos o que vai ser. É tudo muito incerto”. Além disso, para os membros da Falos & Stercus, da Neelic, da Oigalê, do Povo da Rua e da Caixa-Preta, houve descaso com suas atividades por parte da Saúde. “Há a questão do valor material e imaterial do nosso trabalho, já que são 16 anos produzindo arte e cultura - muitas vezes no lugar do Estado -, e também a questão mais grave que é o inacesso sobre as nossas coisas e o nosso destino”, fala. Ela ainda assegura que as companhias vão trabalhar para retomar tudo e que têm o apoio de toda a classe artística para isso.


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