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Porto Alegre, segunda-feira, 29 de Maio de 2017

  • 18/02/2017
  • 15:14
  • Atualização: 15:23

Centro Estadual de Treinamentos Esportivos sofre com falta de investimentos e vandalismo

Governo promete concluir reformas no local até maio deste ano

Pavilhão do Cete está destelhado há mais de um ano  | Foto: Carmelito Bifano / Especial / CP

Pavilhão do Cete está destelhado há mais de um ano | Foto: Carmelito Bifano / Especial / CP

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  • Carmelito Bifano

Sob o olhar atento dos pais, uma turma de meninas de pouca idade dá os seus primeiros pulos na ginástica artística. A felicidade dos responsáveis em participar deste momento e ver os filhos longe das ruas e praticando uma atividade saudável seria ainda maior não estivessem eles sentados em uma arquibancada que precisou ser amarrada com cordas para se sustentar. A realidade do atual estado do Centro Estadual de Treinamentos Esportivos (Cete), no bairro Menino Deus, em Porto Alegre, no entanto, está longe do ideal. De novo.

“As pombas entram pelo telhado quebrado ou pelas janelas sem vidro e suas fezes sujam os aparelhos que as crianças usam. Isso pode gerar até um problema de saúde. Além disso, as crianças não têm água para beber. Precisamos trazer de casa, neste verão de 38 graus. Tinha um bebedor, mas ele estragou. Levaram para arrumar e até agora não voltou. Falta papel higiênico. Os professores que dão aula aqui fazem por sua conta, pois não são concursados. São uns heróis. Um deles chegou a ter 300 alunos, mas hoje só tem três pela falta de estrutura”, afirmou Beatriz Gayer, de 31 anos, que leva as duas filhas para as aulas de ginástica.

Segundo um funcionário que não quis se identificar, os bebedouros foram destruídos por vândalos e eles precisaram ser retirados para conserto. O curioso é que em outro prédio do mesmo complexo dezenas de garrafas de água estão abandonadas. Foram doadas para a realização dos Jogos Escolares do RS (Jergs) e Jogos Intermunicipais do RS (Jirgs). A competição, no entanto, se encerrou em dezembro. As garrafas continuam lá. Uma nova reforma está em andamento. O pavilhão do maior complexo esportivo público gaúcho foi destelhado há 387 dias por ventos de até 120 km/h em um dos mais severos episódios climáticos dos últimos anos e desde o início de fevereiro vem sendo reformado.

O governo do Estado irá desembolsar R$ 497.526 para refazer o telhado, o piso, a pintura, os vidros, as portas e toda a parte elétrica, que apresentava quedas de energia. “O andamento da obra está em bom ritmo. A Secretaria de Obras nos passará os relatórios com as medições de quanto devemos pagar pela execução até o momento e vamos cumprir, já que o recurso está disponibilizado pelo governo do Estado”, revelou o presidente da Fundação de Esporte e Lazer, Luiz Gustavo de Souza.

A expectativa é que as obras fiquem prontas entre abril e maio. Se o principal ginásio está sendo reformado, o restante dos prédios necessita urgente de atenção e os problemas não são poucos. Como dois muros foram derrubados com árvores que caíram no temporal de janeiro de 2016, invasões ocorreram em alguns prédios e depredações foram registradas. O muro que fica no lado da avenida Érico Verissimo foi reconstruído e o outro, da rua Gonçalves Dias, será colocado nos próximos dias.

Dois seguranças por turno fazem a segurança para as mais de três mil pessoas que utilizam o Cete diariamente em diversas modalidades esportivas. Com a reforma concluída, a expectativa é que o número chegue a quatro mil por dia. “Final de tarde falta espaço no estacionamento e a pista de atletismo fica lotada”, revelou outro funcionário do centro de treinamentos.

Com dois funcionários contratados pelo Estado para fazer a limpeza de toda a área interna e externa, não resta outra saída a não ser as entidades esportivas que utilizam o local comprarem o material e pagarem para ter o mínimo de higiene. “Pagamos do nosso próprio bolso para uma senhora fazer a limpeza. Como vamos deixar as crianças praticar esportes em um local sujo?”, revelou um dos professores que trabalham no Cete sem receber nenhum centavo do governo.

Governo nega privatização

Com 53 anos de história, o Centro Estadual de Treinamento Esportivo (Cete) segue funcionando graças ao empenho de pessoas que lutam contra o abandono e a falta de estrutura gerada pelas dificuldades financeiras que o Estado enfrenta. Sob a alegação de diminuir o custo da máquina, a Fundação de Esporte e Lazer do Estado do Rio Grande do Sul (Fundergs) foi extinta pelo governador José Ivo Sartori no dia 5 de janeiro de 2016, mas segue funcionando até que a nova Secretaria da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer conclua o processo de reestruturação.

Após a nova formatação ser concluída, os responsáveis pela pasta prometem buscar alternativas para revitalizar o local e dar melhores condições para o surgimento de novos atletas gaúchos. “Com a situação financeira do Estado, está sendo estudada a possibilidade de a atividade esportiva ser paga com recursos da Lei Pelé, repassado pelo governo federal. Com o valor, o Estado pagaria todo o calendário de eventos e os convênios com os municípios”, afirmou o presidente da Fundação, Luiz Gustavo de Souza.

Os rumores de planos para a privatização da área ou mesmo a venda do local são rechaçados. O presidente da Fundergs defende que o Estado assine um convênio com alguma entidade pública com expertise em educação física, como uma faculdade, para gerir o espaço e as verbas destinadas pelo governo. Porém, ainda não existe uma definição de como a nova secretaria irá tratar do tema. “O que estamos trabalhando é como fazer o convênio e qual o volume de recursos que temos que disponibilizar para que uma entidade consiga abranger todas as atividades físicas que temos no Cete. Eles definiriam o melhor aproveitamento para a área e preparariam nossos atletas para buscar os melhores resultados para o Rio Grande do Sul”, afirmou o presidente. “Com a administração da nova estrutura, acredito que se iniciará o processo de recuperação, revitali-zação da área e para dar melhores condições para trabalhar os esportes”, aposta Souza.

Entregue à população no dia 21 de março de 2016, a pista de caminhada, que circunda a de corrida, está praticamente destruída após 335 dias de uso pela população. As discussões em relação ao equipamento de 565 metros pavimentados com material emborrachado reciclado e orçada em R$ 457 mil pode parar na Justiça. A pista foi construída como contrapartida à cedência do Cete para a realização de uma competição da Federação Gaúcha de Triathlon (AGTri) e patrocinado por uma empresa de telecomunicações. A entidade contratou uma empresa para tocar a obra, mas o produto final não ficou de acordo com o aguardado.

“A pista de caminhada externa foi um projeto da Federação Triatlon, que captou recursos através do Pró-Esporte. O legado foi a pista alternativa de caminhada. A federação contratou uma empresa, que fez um péssimo serviço. A situação hoje está no departamento de prestação de contas e no jurídico. A empresa terá dois meses para corrigir a pista ou será ajuizada uma ação para devolução de todo o recurso do Pró-Esporte”, revelou o presidente da Fundergs.

De acordo com Souza, a reforma do ginásio atingido pela tempestade demorou porque um primeiro orçamento feito pela pasta ficou muito alto para a realização da obra. Um novo processo foi realizado e uma construtora de Bento Gonçalves foi a vencedora. Até maio, o espaço poderá voltar a abrigar atividades como goalball, para deficientes visuais, vôlei, basquete, handebol, badminton, futebol de salão e levantamento de peso, para adultos e crianças.