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Porto Alegre, sexta-feira, 24 de Novembro de 2017

  • 11/11/2017
  • 16:54
  • Atualização: 17:08

Estímulo à leitura é alavanca de inclusão na Feira do Livro

Proficiência em leitura e escrita envolve diferentes estímulos

Estímulo à leitura é alavanca de inclusão na Feira do Livro | Foto:  Samuel Maciel / CP Memória

Estímulo à leitura é alavanca de inclusão na Feira do Livro | Foto: Samuel Maciel / CP Memória

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  • Correio do Povo

Mais de 10 mil crianças e jovens devem passar pela 63ª Feira do Livro de Porto Alegre, mas quase metade pode não ter nível suficiente de leitura para compreender as obras que compra. A constatação se baseia no levantamento do movimento Todos Pela Educação a partir dos dados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) de 2016. Conforme o estudo, serão necessários 76 anos para que todos os alunos brasileiros sejam considerados proficientes em leitura ao final do 3º ano do Ensino Fundamental, se o país continuar no ritmo atual. Para reverter essa situação, a Feira do Livro, unida a instituições de Educação, reforça a importância do estímulo à leitura, desde cedo, por meio de projetos, conversas com autores, espetáculos e contação de histórias. 

Incentivo

Representante do Núcleo de Formação de Mediadores de Leitura da Feira do Livro da Capital, Ana Paula Cecato destaca a importância de preparar professores e bibliotecários para aproximar os estudantes, desde pequenos, dos livros. Uma das propostas do evento para promover o incentivo é o ciclo Autor no Palco, que reúne estudantes com escritores para discutir obras trabalhadas durante as aulas. Os alunos do 4º ano da Escola Antonio Aires de Almeida, em Gravataí, por exemplo, participaram da palestra da autora Marília Pirillo. O estudante Guilherme Ferdinando, 10 anos, pela primeira vez na Feira, conta que gosta de ler vários tipos de livros e aproveitou a visita para comprar um, sobre o jogo Minecraft.

Na avaliação de Ana, o interesse das crianças por temas de jogos e da Internet não é negativo, como alguns professores consideram, mas pode, na verdade, ser utilizado para atrair estudantes à leitura. Ela argumenta que os mediadores precisam estar atentos e atualizados, mas, ao mesmo tempo, ter conhecimento em literatura, para poder apresentar outras obras aos jovens um dos principais desafios, atualmente. A bibliotecária da ONG Cirandar, Aliriane Almeida, que está responsável pela programação da Feira na Biblioteca Moacyr Scliar, argumenta que muitos profissionais ainda têm receio de deixar os alunos tocarem nos livros. No entanto, ela defende o incentivo do toque como forma de aproximação, juntamente com a contação de histórias, encenações e outras atividades.

Além das atividades desenvolvidas na Feira de Porto Alegre, Ana aponta alguns projetos semelhantes desenvolvidos em escolas públicas, como o “Adote um Escritor”, do qual participam 131 escolas municipais de Porto Alegre; o “Lendo pra Valer”, envolvendo 60 escolas estaduais; ou o “Livro Lido”, que acontece em 20 escolas municipais de Cachoeirinha. Além disso, o curso de extensão Tessituras —parceria da Câmara Rio-grandense do Livro com o Colégio de Aplicação da Ufrgs — trabalha a formação de mediadores.

Alunos escritores

Pelo 25º ano consecutivo, a Secretaria Estadual da Educação (SEC) lança, durante a Feira do Livro da Capital, a coleção “Crianças e Jovens do Rio Grande do Sul Escrevendo Histórias”, que reúne textos selecionados de estudantes de todo o Estado. Nesta edição 2017, sob a coordenação de Maria do Carmo Mizetti, o projeto mantém a ênfase e o principal foco no incentivo à leitura e à escrita, valorizando não apenas os textos escolares como também seus autores, que são destacados na Feira.

A obra deste ano possui histórias de 95 alunos, de 4 a 18 anos de idade, de diferentes escolas estaduais. Na última sexta-feira (10/11), os alunos participaram de uma cerimônia de lançamento na SEC e, à tarde, realizaram sessão de autógrafos na Feira do Livro. “É um momento muito diferente para eles, pois, para alguns estudantes, é a primeira vez que vêm à Feira e, até, a Porto Alegre”, revela a professora Daliana Amaral.

As edições costumam ter uma temática específica como “Ação local, benefício global”, em 2016, que trabalhou o impacto no mundo. Neste ano, porém, os alunos podiam escrever sobre qualquer assunto. Mesmo assim, Daliana conta que depressão, suicídio e desamparo foram temas recorrentes nos textos escolares. “As histórias também são uma forma de expressão dos alunos e, a partir delas, podemos entender melhor o que eles estão pensando”, assinala a professora.

Inclusão Social

Para a Fundação de Atendimento Sócio-educativo do Rio Grande do Sul (Fase), a socioeducação é uma forma de inclusão social. Pensando nisso, o Núcleo de Esporte, Lazer, Cultura e Espiritualidade da Fase (Nelce) participa da Feira do Livro da Capital, pelo terceiro ano, com programação especial para os alunos. O chefe do Nelce, Isair Barbosa, destaca a importância do resgate do conhecimento a partir da leitura e da escrita, já que muitos dos internos têm defasagem escolar.

Os adolescentes produziram textos e desenhos, que foram expostos em um Varal Literário na Feira. O Centro de Atendimento Socioeducativo (Case) de Porto Alegre I, por exemplo, realizou um trabalho de releituras, para estimular a inclusão digital, no qual os alunos digitaram frases do livro “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry. Já na Case Padre Cacique foram feitas cartas para a família. “Vó, tenho muito a te dizer, mas com palavras não sou muito bom, contudo, enfim, te amo”, diz um dos textos.

A professora aposentada de História Margarida Tiburi conta que um garoto que trabalhava como assistente de pedreiro na sua casa a reconheceu a partir de seu livro na biblioteca da Fase e pediu para fazer contato. A partir disso, Margarida fez um trabalho com ele até sua liberação e, atualmente, continua com outro jovem. O livro sobre a história do município de São Jerônimo despertou a curiosidade do aluno, que, agora, pesquisa sobre sua própria cidade, Encruzilhada do Sul. “A partir do livro, ele se aproxima de sua comunidade”, explica a oficineira Adriana Tavares, que acompanha o trabalho.

Indicadores do Contexto

Os resultados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) de 2016 permitem inferir dados e percentuais relacionados à aprendizagem. A partir dos informes referentes ao contexto escolar do Rio Grande do Sul, é possível estabelecer um comparativo com o cenário nacional, de fatores que interferem no desempenho do estudante.