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  • 17/03/2017
  • 14:11
  • Atualização: 15:05

Região Metropolitana de Porto Alegre lidera a taxa de crimes

Alvorada registrou quase mil homicídios em uma década

Região Metropolitana de Porto Alegre lidera a taxa de crimes | Foto: Alina Souza

Região Metropolitana de Porto Alegre lidera a taxa de crimes | Foto: Alina Souza

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  • Correio do Povo

Por Mauren Xavier, Jessica Hübler e Rodrigo Celente

No ranking das 15 cidades com maior número de homicídios dolosos da última década, algumas situações chamam atenção. Por exemplo, dez delas integram a Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA). Além da Capital, estão Alvorada (991), Canoas (988), Viamão (906), São Leopoldo (710), Gravataí (620), Novo Hamburgo (610), Sapucaia do Sul (361), Guaíba (296) e Cachoeirinha (259).

• Confira no mapa do RS o número de homicídios em cada cidade do Estado

Outra constatação é que, se somarmos o total dos homicídios cometidos nos 15 municípios, verifica-se uma grande concentração da criminalidade no âmbito estadual. Os dados da RMPA, com as cidades de Caxias do Sul (927), na Serra; Pelotas (516) e Rio Grande (275), na região Sul; Passo Fundo, no Norte (386); e Santa Maria (311), na região Central; chegam a um total de 12.944 homicídios. ou seja, esses municípios concentram 65% dos homicídios cometidos nos últimos dez anos. Rodrigo de Azevedo destaca que a Região Metropolitana de Porto Alegre — que não possui, em termos territoriais, limites bem delimitados entre as cidades – acaba por apresentar um reflexo direto da guerra entre as facções criminosas.

“É um conglomerado urbano que tem grandes regiões de moradias de baixa renda, áreas onde não há a presença do Estado, onde não há policiamento ostensivo de forma direta e cotidiana. Então é uma região que tem de fato a presença de grupos organizados, articulados em torno dos mercados ilegais e que se utilizam da violência como forma de controle territorial”, ressalta o sociólogo. Além disso, o poderio dos grupos acaba por se ramificar por toda a Região Metropolitana, inclusive dentro do sistema prisional. “Há presos dentro do Presídio Central que vêm da RMPA e acabam se conectando com essas organizações, que se espalham por toda a região”, relata. Nesta mesma linha, o diretor do Departamento de Homicídios do Estado, Paulo Rogério Grillo, explica que quanto mais afastado o município estiver da Capital, tirando alguns casos específicos, o poder das organizações reduz, assim como os crimes.

O poder do dinheiro

Dos 15 maiores PIBs, segundo a Fundação de Economia e Estatística (FEE) de 2014, 12 municípios também estão entre os 15 com maior número de homicídios na década. As exceções são Santa Cruz do Sul, Bento Gonçalves e Triunfo, que estão entre os maiores PIBs do Estado, mas não aparecem no ranking. De outro lado, as três cidades que não constam entre as maiores economias mas figuram na lista de maior número de homicídios são Alvorada, Viamão e Sapucaia do  Sul.

Algumas cidades registraram, entre 2015 e 2016, aumento nos homicídios, como Caxias do Sul, que passou de 86 casos para 116, mais de 30 mortes de um ano para outro. Em Viamão, que na década acumulou aumento de 110%, o número de homicídios subiu 13% nos dois últimos anos. Há outros municípios, no entanto, que conseguiram conter a criminalidade entre 2015 e 2016. Por exemplo, Alvorada ao longo da década veio numa crescente em número de homicídios, mas entre 2015 e 2016 registrou recuo de 119 para 103 casos, fazendo com que a cidade ficasse atrás de Porto Alegre, Viamão e Caxias do Sul no ano passado. O titular da Delegacia de Homicídios de Alvorada, André Anicet, acredita que um fator foi a prisão, em 2016, de diversas lideranças que “dominavam determinados bairros” da cidade por meio do tráfico de drogas. “Possivelmente a redução no número de homicídios está relacionada à prisão dos líderes”, afirma.

Na avaliação de Azevedo, a queda no número de homicídios pode ser sazonal. “Houve em algum momento um confronto maior, depois, quando esse impasse se resolve, no ano seguinte, a taxa é menor”, conjectura. De qualquer maneira, Alvorada tem sido historicamente a cidade mais violenta da RMPA, então, essa queda pode ser reflexo de algum tipo de investimento para modificar este quadro. Canoas, segundo o sociólogo, tem sido modelo na adoção de políticas públicas municipais na área da Segurança, especialmente na prevenção ao crime. “E isso vem dando resultado.” O município reduziu de 133 homicídios para 109 nos últimos dois anos.

Nesta mesma linha, estão outras cidades, como São Leopoldo e Novo Hamburgo, que reduziram os números, respectivamente, de 96 para 75 e de 80 para 54 casos. Os municípios de Pelotas, Passo Fundo e Rio Grande também seguiram este movimento. Um dos casos emblemáticos é Cachoeirinha, na Região Metropolitana, que viu os homicídios caírem 50% entre 2015 e 2016. “Acredito que possa ser uma situação semelhante à de Alvorada, onde há uma sazonalidade, com momentos em que há um aumento e depois uma queda, mas é fruto dos próprios confrontos entre os grupos armados em cada um dos municípios”, explica Azevedo.

Outro dado que pode servir de referência é o tamanho da população. Apesar de o índice não justificar por si só o aumento ou redução dos assassinatos. Por exemplo, o segundo no ranking no acumulado de mortes é Alvorada, que, de acordo com a Famurs, tem população de 207.392. Só que o município registrou três vezes mais homicídios do que o observado em Rio Grande, que tem população um pouco maior de 208.641. No panorama geral dos 15 municípios chama atenção do caso da cidade de Santa Maria, como elevação de 350% na década.

Redução passa por políticas

Para reverter esse panorama, Rodrigo de Azevedo diz que é preciso que haja reversão de prioridades. Em outras palavras, priorizar os grupos que têm sido mais vitimizados, que são os moradores de periferia, muitas vezes jovens ligados aos mercados ilegais. São necessárias políticas de prevenção, além da repressão policial, investigação e esclarecimento do crime, o que nem sempre acontece.

Há mais de um mês foi lançado, em Porto Alegre, o Plano Nacional de Segurança Pública, que engloba ações integradas entre os governos federal e estadual. Entre os principais objetivos da medida estão: a redução de homicídios dolosos e feminicídio, racionalização e modernização do sistema penitenciário, e combate à criminalidade organizada transnacional.