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  • 12/08/2017
  • 11:42
  • Atualização: 13:22

Descaso com Javalis gerou praga

Animais entraram no Rio Grande do Sul nos anos 80

Josmar participa de um grupo da caça esportiva que já abateu cerca de 80 javalis nos municípios dos Campos de Cima da Serra | Foto: Josmar de Souza Padilha / Divulgação / CP

Josmar participa de um grupo da caça esportiva que já abateu cerca de 80 javalis nos municípios dos Campos de Cima da Serra | Foto: Josmar de Souza Padilha / Divulgação / CP

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  • Nereida Vergara / Correio do Povo

Registros históricos indicam que o javali europeu chegou à América Latina trazido por fazendeiros da Argentina e do Uruguai para se tornarem atração em propriedades de caça esportiva no começo do século 20. Os animais acabaram entrando no Rio Grande do Sul, que tem fronteira com os dois países, e ainda nos anos 80 iniciaram o cruzamento com o suíno doméstico, muitas vezes criado solto. O resultado ficou conhecido como “javaporco”, um animal de maior compleição física e maior quantidade de carne, mas com as mesmas características selvagens do javali.

Nos anos 90, com a explosão do interesse pela carne exótica, produtores de todo o país obtiveram do Ibama a autorização para a criação em cativeiro do javali, com vistas à exploração comercial. O negócio, depois do frenesi inicial, passou a não ser tão vantajoso, já que o tempo para a terminação do porco asselvajado corresponde a mais do que o dobro do necessário para o suíno doméstico. “Um suíno pode ser terminado em até seis meses. O javali chega a levar dois anos e mesmo assim a disponibilidade de carne da sua carcaça é menor”, compara Marcelo Wallau, professor da Universidade da Flórida (EUA), agrônomo e doutor em Zootecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e integrante da Equipe Javali no Pampa, cujos estudos e ações para o controle da espécie são reconhecidos nacionalmente. “O custo de produção acabou sendo muito maior do que imaginavam os criadores, levando-os, em muitos casos, a desistir do empreendimento e a soltar os animais na natureza”, afirma.

Wallau explica que a aproximação do animal do ambiente rural se deve à disponibilidade de alimento e também de resíduos descartados. A série de cadernos técnicos “Javali no Brasil”, da Equipe Javali no Pampa, demonstra a escala reprodutiva do animal. Uma fêmea pode parir em média sete leitões por gestação, duas vezes por ano. Considerando-se uma taxa de sobrevivência de 70% e que metade das crias sejam fêmeas, que passarão a reproduzir depois de um ano, um grupo inicial de dez fêmeas pode originar uma vara de 3,5 mil javalis em seis anos.

O grupo gaúcho promove encontros com produtores para difundir práticas de controle. Descarte adequado de resíduo, cercamento das propriedades e confinamento de animais em parição são algumas das medidas que podem ser adotadas. A equipe utiliza o sistema de jaulas para atrair os animais, com iscas como alimentos ou uma fêmea no cio. Depois de capturados, os javalis são abatidos com um disparo certeiro de arma de fogo, de forma a evitar sofrimento. Por este sistema, em 2015, 124 agentes de manejo populacional, capturaram e exterminaram 2.389 javalis numa amostragem registrada pela Javali no Pampa. “É certo que o número de abates da espécie é muito maior que o apurado pelo Ibama, diz Wallau, referindo-se à falta de notificação de captura e abate, que é recomendada na emissão da licença.

Diretora-técnica da Organização Não Governamental (ONG) Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, a veterinária Vânia Plaza Nunes elogia o trabalho da Equipe Javali no Pampa. Ela ressalta que o Fórum participa de todas as discussões que se referem ao controle do javali com a disposição de reverter a legislação que liberou a caça da espécie. “No passado, o Ibama não responsabilizou quem devia pela entrada do javali no nosso ecossistema e nem pela soltura dos animais na natureza”, critica. “A fiscalização foi falha e agora a responsabilidade pelo controle está sendo transferida para o caçador.”

Vânia reconhece que hoje não existe hoje outra forma de controlar o javali a não ser o abate, mas ressalta que este deve evitar a crueldade que pode caracterizar a caça. A ONG, diz a diretora-técnica, defende a intensificação da pesquisa para que se encontre formas de controlar o javali com ações de esterilização de machos e fêmeas; e meio de tratá-los para no futuro poder destinar sua carne ao consumo. “Liberar a caça, simplesmente, não vai melhorar a situação”, destaca.

Cães, espingardas e armadilhas no cerco ao animal

Ninguém discute a relevância do trabalho dos agentes de manejo populacional no controle do javali. Os cadernos técnicos da Equipe Javali no Pampa definem o animal como muito agressivo, especialmente se for acuado. Fêmeas que protegem os filhotes e machos solitários são perigosos. O javali é ágil e tem quatro dentes caninos afiados, de até dez centímetros, que podem destroçar vestimentas ou a pele de animais. A caça esportiva auxilia os produtores, que autorizam os agentes a entrar em suas propriedades para procurar e eliminar o invasor.

Josmar de Souza Padilha, de Caxias do Sul, atua há dois anos com um grupo de oito caçadores na região dos Campos de Cima da Serra. Neste período, acredita que o grupo já eliminou pelo menos 80 animais com pesos de 100 a 110 quilos cada. Padilha tem licenciamento do Ibama e armas regularizadas. A estratégia que adota é a de busca pelos javalis, durante o dia, com o auxílio de cães farejadores cruza das raças pitbull e boiadeiro australiano treinados no “agarre”, a imobilização do animal para que o caçador se aproxime e o mate. As armas de fogo preferenciais são as espingardas, de calibre 12 e 20, e os facões.

Proprietário de uma empresa de artefatos em concreto, Padilha caça nos finais de semana e diz desconhecer produtores rurais que remunerem o trabalho dos agentes de manejo na eliminação de javalis que estejam causando prejuízo em suas propriedades. “Só podemos atuar em uma propriedade com a autorização expressa do dono”, complementa, reconhecendo que outras situações, como entrada sem autorização, dão direito ao produtor rural de chamar a polícia, que, por sua vez, vai prender o caçador e apreender todo o armamento. Padilha lembra também que o grupo não vai a campo com uma sanha de extermínio, dando preferência aos animais adultos e abatendo leitões apenas quando estes são feridos pelos cães, para que não agonizem.

O comportamento responsável relatado por Padilha nem sempre é sentido pelos produtores. Martha Guazelli, vice-presidente da Associação dos Produtores dos Campos de Cima da Serra, diz que já teve mais problemas com caçadores do que com os próprios javalis porque os cães usados na perseguição ao invasor, “verdadeiras feras”, mataram ovelhas da propriedade em Campestre da Serra. Martha adotou armadilhas que atraem o javali com alimentos, parando-o antes que entre na plantação ou se aproxime dos animais de criação. Somente nesses casos é que são chamados os agentes de manejo para o abate. “Foi a forma que encontrei de afastar o animal do milho, que ele procura logo depois do plantio para comer adubo e sementes e que devasta quando já esta com espigas”, explica.