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  • 02/12/2017
  • 11:52
  • Atualização: 12:22

Economia do leite opera com instabilidade no Rio Grande do SUl

Queda fez com que pequenos agricultores deixassem atividade

Produtores sentiram impacto na queda do preço do produto | Foto: Felipe Dorneles / Divulgação / CP

Produtores sentiram impacto na queda do preço do produto | Foto: Felipe Dorneles / Divulgação / CP

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  • Cíntia Marchi

O declínio dos preços do leite no Rio Grande do Sul impõe aos produtores a árdua missão de sobreviver em meio à crise. Durante seis meses, de maio a outubro deste ano, os valores pagos aos produtores ingressaram em uma sequência de desvalorização o litro passou de R$ 1,05 para R$ 0,82. No rastro da baixa remuneração paga ao produtor, situação forçada pelo excesso de oferta e pela baixa demanda de lácteos no Brasil, há milhares de famílias, indústrias, comércios, serviços e prefeituras impactados com a menor arrecadação.

Relatório Socioeconômico da Cadeia Produtiva do Leite no RS, divulgado pela Emater em setembro, apontou que nos últimos dois anos 24,7 mil produtores desistiram da atividade leiteira. Apenas na Regional da Emater de Santa Rosa, no Noroeste, 5,3 mil famílias encerraram as lidas com o rebanho, como foi o caso de Antonio Barbaro (foto acima), de Porto Lucena. As que permaneceram no ramo amargam, nos últimos meses, um impacto financeiro milionário. Na simulação feita pelo assistente técnico do escritório regional da Emater de Santa Rosa, Ivar Kreutz, se o preço do produto tivesse caído apenas R$ 0,10 por litro, deixariam de circular 3,5 mil salários mínimos, ou R$ 3,3 milhões por mês, nos 20 municípios da região. O cálculo leva em conta a produção de 1,1 milhão de litros de leite por dia.

Com a queda nos preços, ficam para trás aqueles produtores com custo de produção incompatível com a realidade. “Temos vocação para produzir leite, mas há negócios que não são sustentáveis”, alerta Kreutz. Na simulação feita pelo agrônomo, uma propriedade controlada por apenas um casal, que vende 300 litros por dia a R$ 0,95, pode gerar lucro de R$ 5 mil, se produzir com custos de produção de até 40%. Já se os custos saltarem para 80% (contratação de mão de obra, descontrole nos gastos com energia elétrica e combustível, etc), os ganhos serão de R$ 1,7 mil para o casal, menos de um salário mínimo por pessoa.

Por trás de cenários como este, há famílias e municípios fragilizados. Kreutz acredita que muitos produtores que desistiram da atividade leiteira passaram a viver apenas com a aposentadoria, o que é um caso bem comum entre as famílias que não têm sucessão. Já a produção ficou concentrada em um número menor de propriedades. “Quanto menos famílias recebem o valor mensal do leite, menos gente consome no comércio, na indústria, tem menos dinheiro circulando nos municípios”, alerta.

O coordenador do Serviço de Análise de Rebanhos Leiteiros (Sarle), da Universidade de Passo Fundo (UPF), Carlos Bondan, lembra que o leite movimenta uma grande cadeia. “Quando o produtor grita lá no Interior, não é só ele que está gritando. É também o setor de rações, de insumos, de inseminação, de transporte”, enumera. Para mensurar o tamanho da importância remuneradora do leite, o presidente da Federação das Associações de Municípios do RS (Famurs), Salmo Dias de Oliveira, comenta que há duas datas no mês que mais movimentam a economia das pequenas cidades: o dia de recebimento da aposentadoria e o dia do “cheque do leite”. “Este produto é uma das principais fontes de renda da agricultura familiar e é o que faz circular dinheiro mensalmente nos municípios. As prefeituras, com certeza, sentem reflexos desta crise”. Dos 497 municípios gaúchos, 491 têm produtores de leite, conforme a Emater.

A crise também atinge as indústrias. Segundo o presidente do Sindilat, Alexandre Guerra, de julho a outubro, as empresas operaram “no vermelho”. A expectativa, a partir de agora, é de recuperação, apesar da cautela, já que tradicionalmente o período de verão registra menor consumo de lácteos. “Produtores, indústrias, cooperativas e governo têm que fazer a sua parte, melhorar a produtividade e reduzir custos”. Por parte do governo, acrescenta Guerra, se espera um sistema tributário justo, cotas para importação e melhor infraestrutura para redução dos custos logísticos.

Preço de referência

Janeiro: R$ 0,9442

Fevereiro: R$ 1,0140

Março: R$ 1,0332

Abril: R$ 1,0512

Maio: R$ 1,0353

Junho: R$ 0,9888

Julho: R$ 0,9403

Agosto: R$ 0,8914

Setembro: R$ 0,8549

Outubro: R$ 0,8292

Novembro: R$ 0,8653

Fonte: Conseleite/RS

Razões para queda nos preços

Vários fatores explicam a baixa liquidez do leite. Entre eles, a crise nacional que afetou o poder aquisitivo das famílias e a importação de altos volumes de leite, principalmente do Uruguai, no momento em que o Brasil teve incremento da produção interna. Outros culpam a baixa eficiência das propriedades e o peso do chamado “custo Brasil”. Para o assessor de Política Agrícola da Fetag, Márcio Langer, o excesso de normas e de exigências feitas pela indústria, principalmente a partir das operações Leite Compensado, também acarretaram baixo retorno ao produtor. “Alguns investimentos não se traduziram em rentabilidade”. O pesquisador João Cesar de Resende, da Embrapa Gado de Leite, atenta para a baixa competitividade. “Nossas vacas produzem menos e nosso custo de produção e a carga tributária são mais altos do que os dos principais países exportadores”