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Porto Alegre, sábado, 27 de Maio de 2017

  • 15/04/2017
  • 16:44
  • Atualização: 16:46

Governo estabelece prazo para que RS suspenda vacina contra febre aftosa

Estado fica no bloco das últimas regiões que vão adotar medida

Governo estabelece prazo para que RS suspenda vacina contra febre aftosa | Foto: Fernando Kluwe Dias / Divulgação Seapi / CP

Governo estabelece prazo para que RS suspenda vacina contra febre aftosa | Foto: Fernando Kluwe Dias / Divulgação Seapi / CP

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  • Danton Júnior

Junho de 2021. Se o plano estratégico do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) for seguido à risca, esta é a data em que o Rio Grande do Sul irá suspender a vacinação contra a febre aftosa, colocando um ponto final em uma longa discussão. Os detalhes do planejamento feito pelo governo federal foram apresentados durante a 44ª reunião da Comissão Sul-Americana para Luta Contra a Febre Aftosa (Cosalfa), ocorrida entre os dias 3 e 7 de abril em Pirenópolis (GO).

No Rio Grande do Sul, o último foco de aftosa foi registrado em 2001. Pelo cronograma do Mapa, o Estado será um dos últimos a retirar a vacina. A imunização deve ser suspensa de forma gradativa, em blocos, a partir de maio de 2019, a começar por Acre e Rondônia. O Rio Grande do Sul integra o bloco 5, junto com Santa Catarina, que é o único Estado do país onde a vacinação já foi suspensa.

Segundo o fiscal federal agropecuário Bernardo Todeschini, do Serviço de Saúde Animal da Superintendência do Mapa no Rio Grande do Sul, isso não impede que a retirada da vacina em solo gaúcho possa ocorrer antes ou depois deste prazo. “O Rio Grande do Sul e o seu bloco têm a responsabilidade de tomar a iniciativa e trabalhar para definir os seus próprios prazos. Isso é muito mais relacionado ao desenvolvimento de condições específicas de trabalho, da capacidade de gestão de fatores de risco e a apresentação disso para o grupo que gerencia, em Brasília”, observa.

Pelo cronograma do Mapa, além do Rio Grande do Sul devem suspender a vacina em junho de 2021 outros 12 estados. Com isso, o Estado ficou atrás de estados que ainda não são considerados áreas livres de aftosa - caso de Roraima, Amazonas e Amapá. Segundo Todeschini, o critério prioriza o reconhecimento aos estados que produzem animais que, em sua maioria, são enviados para recria e/ou abate em outros estados. “Desta forma, o processo de reconhecimento não afetará negativamente os fluxos comerciais já existentes em nível nacional, pois estados livres sem vacina não podem receber animais vacinados”, explica.

Para os próximos quatro anos, a aproximação com os países vizinhos é um dos focos da defesa agropecuária gaúcha. “Nossa realidade precisa ser discutida com Uruguai e Argentina, porque temos uma grande faixa de fronteiras”, defende o secretário estadual da Agricultura, Ernani Polo. Tanto Argentina (exceto no Sul do país) quanto o Uruguai mantêm a vacinação contra aftosa e não têm planos de retirá-la neste momento. O mesmo ocorre com o Paraguai.

Os uruguaios, pelo menos, demonstram interesse em dialogar. Um contato preliminar já foi feito com os autoridades daquele país durante a reunião da Cosalfa, quando ficou acordado que devem ocorrer três encontros, ainda em 2017, na região fronteiriça. O tema será a retirada da vacinação e a sanidade animal em geral. Na América do Sul, apenas Chile e Peru já suspenderam a vacinação em todo o seu território.

Outro desafio dos próximos quatro anos, citado por Polo, é o fortalecimento das ações de defesa agropecuária. “Desde o último foco ocorrido no Estado está se buscando a ampliação do sistema de defesa”, afirma. Embora defenda a mudança do status sanitário, o secretário afirma que trata-se de uma decisão técnica, e não política.

Uma das principais justificativas para a conquista do novo status sanitário é a abertura de novos mercados para a carne, em especial na suinocultura. O suíno é uma espécie suscetível, mas não portadora da doença. Alguns mercados mais exigentes, como o Japão, exigem que o produto seja originário de regiões onde não exista a vacinação - mesmo que os suínos não sejam vacinados. Outra alegação para a retirada da vacina é o custo que a imunização representa para o setor bovino, cerca de R$ 470 milhões.

Projeto analisa risco

Um projeto piloto de análise de risco da febre aftosa deve começar a ser implantado ainda no primeiro semestre deste ano no Rio Grande do Sul. A iniciativa é da Secretaria Estadual da Agricultura (Seapi), em parceria com o Laboratório de Epidemiologia Veterinária (Epilab) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

O método foi elaborado pelo veterinário Diego Viali dos Santos, em sua tese de doutorado defendida na Ufrgs. Em sua pesquisa, ele avaliou o risco tanto da introdução quanto da disseminação do vírus no rebanho gaúcho. Entre os fatores analisados estão a proximidade com a fronteira e a alta movimentação de animais. Diversos especialistas em sanidade animal também foram consultados. “Com base nesse trabalho, vamos fazer um projeto de vigilância ativa em propriedades rurais do Estado, com metas para os municípios de acordo com essa classificação”, explica a fiscal estadual agropecuária Lucila Carboneiro dos Santos, do Programa de Combate à Aftosa no Rio Grande do Sul.

Serão fiscalizadas as propriedades que as inspetorias veterinárias classificarem como sendo de maior risco para a introdução do vírus. A partir de então, a metodologia inclui o exame clínico de uma parte do rebanho. Além disso, a equipe da Seapi irá realizar um trabalho de educação sanitária, com o objetivo de alertar o produtor sobre a importância de notificação de qualquer sinal, como manqueira e ferida na boca e nos cascos.

Para o veterinário Fernando Groff, assessor técnico da Seapi, o certificado de área livre de peste suína clássica (PSC), obtido em 2015, é um dos fatores que credenciam o Rio Grande do Sul a alterar o status sanitário, já que as exigências são parecidas com as da prevenção contra a febre aftosa. No entanto, ainda há desafios até que a vacinação seja suspensa. “O que temos de fazer é talvez melhorar a parte de vigilância, estabelecer um investimento em pontos críticos, que é o caso das fronteiras, e fazer com que a vigilância seja mais efetiva para o caso de haver uma introdução (do vírus)”, observa. Outra vantagem é o fato de o Rio Grande do Sul fazer fronteira com o único estado até agora reconhecido como livre de febre aftosa sem vacinação, Santa Catarina.

Cautela como recomendação

O 1º vice-presidente da Farsul, Gedeão Pereira, afirma que vê com “certa temeridade” o plano para a retirada da vacinação. Na opinião dele, a estratégia dependeria de um aporte de recursos orçamentários para poder ser executada. “Teríamos que ter uma vigilância muito forte de fronteiras, de portos e aeroportos, e gente treinada de plantão para que, se existir um foco, ele seja debelado rapidamente para que o país não perca o status”, afirma o dirigente.

Uma das dificuldades, segundo Pereira, é a grande extensão da fronteira seca, especialmente com o Uruguai. O dirigente afirma ser normal ver animais com brinco uruguaio pastando em território brasileiro, o que, segundo ele, demonstra o tamanho do desafio para controlar o trânsito de animais.

Bem-estar em discussão

Nesta semana Porto Alegre vai estar no centro das discussões sobre bem-estar animal. De 18 a 20 de abril ocorre na UniRitter o 4º Congresso Brasileiro de Bioética e Bem-Estar Animal. Com o tema “Bem-estar e dor: interesse em não sofrer”, o evento reunirá veterinários, zootecnistas e estudantes interessados no tema.

Segundo a presidente do evento, Ceres Faraco, a expectativa é de que as palestras tragam as abordagens mais recentes sobre o tema considerando-se o contexto econômico e social em todo o mundo, não apenas no Brasil. Ela explica que o tema se insere em uma perspectiva global, em que o bem-estar é visto como princípio norteador das ações humanas com os animais. “Neste sentido, todos os procedimentos veterinários precisam ser reavaliados e, se necessário, aprimorados a partir desta perspectiva”, explica. O congresso é organizado pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), com apoio do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio Grande do Sul (CRMV/RS) e da UniRitter.